março 18, 2015

Clássicos: Húmus de Minhoca como Fertilizante do Substrato


Húmus de Minhoca como Fertilizante do Substrato: 
Método para Tratá-lo e Possibilitar seu Uso Seguro em Aquários 

(Texto recuperado, escrito em 2003 por Vladimir Xavier Simões e republicado aqui com autorização do mesmo)

Tenho usado há mais de três (desde março de 2000) o húmus de minhoca como elemento fertilizante em substrato para plantas aquáticas, com excelentes resultados, e absolutamente nenhum problema que possa ser relacionado a esse material.

Tendo lido vários textos sobre substratos e fertilizantes possíveis de utilização segura em aquários ou para plantas aquáticas, logo percebi que esse seria o material mais acessível tanto em disponibilidade no comércio, em nível nacional. Observação importante é que praticamente 99% desses textos não eram brasileiros, ou seja, tratavam de uma realidade diferente, onde se encontra com facilidade e por preços módicos materiais como turfa, vermiculita, aditivos comerciais diversos e específicos a aquariofilia etc.

Uma das considerações praticamente unânimes sobre o húmus de minhoca nesses textos era sua alta carga biológica e de material orgânico, o que antes de ser problema, encarei como qualidade: bastaria diminuir essa quantidade de material até um nível adequado, que não oferecesse perigo; quanto à carga biológica, bastaria ser esterilizada via aquecimento. 

Assim, procurei desenvolver um método simples, barato e acessível que tornasse mais seguro o uso do húmus de minhoca no aquário plantado. Para tanto, teria que eliminar os “excessos” que inviabilizariam o seu uso, já que havia recolhido relatos via internet de colegas que utilizaram o húmus sem tratamento (direto da embalagem). Esses relatos eram em extremo semelhantes, sempre fazendo menção à formação excessiva de bolhas de gás no interior do substrato, emanação de gases fétidos (H2S e outros gases tóxicos), problemas com as raízes das plantas, surtos de algas incontroláveis, problemas de saúde dos peixes, enfim, colapso de todo o sistema.

Características do Húmus de Minhoca

Alguma vez você já se perguntou por que esse material se chama "húmus de minhoca" e não "estrume de minhoca" ? Ou mesmo “cocô” de minhoca ?

Antes, uma resumidíssima consideração sobre o termo “húmus”. Todo material orgânico que decai até o ponto em que não há mais decomposição microbiana é chamado húmus. Geralmente esse já está finamente particulado, passando a constituir parte importantíssima do solo, garantindo-lhe propriedades de fertilidade e retenção de umidade.

As minhocas ocupam papel de grande destaque na natureza, não apenas pelo fato de aerar e descompactar o solo, mas especialmente por ser capaz de aproveitar de maneira tão completa o seu alimento (praticamente qualquer matéria orgânica livre, geralmente de origem vegetal) que, ao defecar o que não foi absorvido, esse material (coprólitos) encontra-se praticamente humificado, isso é, está tão mineralizado que não há praticamente mais ação microbiana decompositora possível. Por isso recebe o nome de “húmus de minhoca”. 

Isso se deve a uma fantástica ação de quebra molecular da matéria orgânica ingerida por ação enzimática nos intestinos da minhoca

Como vimos, o húmus natural dos solos e o húmus de minhoca compartilham características comuns, mas não devemos nunca confundir as duas coisas. Mas vale esclarecer que o húmus natural do solo é também possível de ser usado como substrato de aquário plantado com segurança.

Algumas características que demonstram a grande versatilidade e adequação do húmus de minhoca como material fertilizante para substrato de aquários plantados:
  1. Alta capacidade de trocas catiônicas (CTC) – é 30 vezes maior que a maioria das argilas que ocorrem no Brasil (veja mais sobre CTC, em breve, no texto sobre substratos para aquários plantados);
  2. Rico em micro e macro elementos, – análise média: matéria orgânica 40 a 55%; Nitrogênio 1,7 a 2,0%; Fósforo 1,4 a 3,8%; Potássio 1,4 a 2,2%; Cálcio 5,4 a 7,2%; Magnésio 0,8 a 1,3%; Ferro 0,8 a 1,8%; Manganês 550 a 770mcg; Zinco 420 a 1200mcg; Cobre 200 a 300mcg; Cobalto 15 a 40mcg; 
  3. Preço baixo – o mais caro que você vai encontrar é sempre menos de R$ 2,00 o Kg no varejo;
  4. Acessibilidade – atualmente se encontra com facilidade até em hipermercados, como tradicionalmente em floras, lojas de jardinagem etc;
  5. Granulometria excelente -- sendo finamente particulado (semelhante a argilas), possibilita a formação de raízes secundárias e até pelos radiculares, que por sua vez proporcionam otimização quase total na nutrição radicular das plantas (isso não é conseguido mesmo pelo uso de areia fina);
  6. Segurança -- se houve qualquer tipo de contaminação por pesticida / produtos tóxicos no material de alimento às minhocas, não há como ocorrer a formação de húmus -- as minhocas morrem antes; e não se pode, de fato, usar pesticida na criação das minhocas, senão elas morrem;
  7. Ecologicamente correto – é 100% natural, matéria orgânica que ao invés de poluir serviu de alimento para as minhocas, e agora se apresenta como matéria praticamente biologicamente humificada; e não envolve mineração de qualquer tipo, com derrubada de matas, destruição de encostas de rios, nascentes etc.
Tratamento do húmus de Minhoca: como fazer

O “tratamento” dá um pouco de trabalho, mas rende bastante. Se fizer com quantidade pequena, mais rapidamente estará feito; mas se fizer com quantidade maior, rende mais, porque dá para guardar o excedente (depois de seco ao sol) por muito tempo, e depois usar quando precisar. 

Materiais:
  • Um recipiente para efetuar as lavagens e fervura: balde de alumínio é o mais indicado
  • Húmus de minhoca puro (sem aditivos);
  • Água limpa (de torneira);
  • Fogão ou fogareiro
Método:
  1. Adquira húmus 100% puro, sem fertilizantes, conservantes etc; você o encontra desde floriculturas e floras, até em alguns grandes supermercados;
  2. Dê uma primeira lavada, da seguinte forma: encha o recipiente até a boca, sem deixar vazar; mas agitando com a mão enquanto enche – vá desmanchando torrões e aglomerados; depois disso feito, espere uns minutos e com muita delicadeza, vá entornando o balde lentamente, de modo que apenas a água com o material em suspensão seja jogada fora (a “água suja”); pode repetir isso mais uma ou duas vezes, eliminando tudo aquilo que flutue;
  3. Com água cobrindo no mínimo 3 cm acima do material, ferva-o por cerca de 10 - 15 minutos; cuidado que pode formar-se espuma e transbordar, então nunca encha de água até as bordas do balde;
  4. Espere dar uma esfriada (não vá se queimar !!! Cuidado !!!), e então comece a lavar da mesma forma que foi descrito no item 1; lave bastante (várias e várias vezes), eliminando todo o material mais leve e que turva a água e permaneça em suspensão depois de 1 a 2 minutos depois que você cessa de agitar;
  5. Ao final dessas lavagens não se deve perder mais que 30% do volume original do húmus; o que está sendo “perdido” é apenas a maior parte da matéria orgânica e material microparticulado que pode vir a facilmente turvar a água do aquário.
    Dica: você pode regar plantas com a água que vai ser eliminada nessas lavagens, pois a mesma é um “caldo” rico em nutrientes.
  6. A hora de parar de lavar: é difícil esclarecer isso por palavras. Tenho feito isso a partir do ponto em que a água dentro do balde, mesmo turva, começa a dar alguma visibilidade – pode-se ver a mão mergulhada a 10 – 15 cm de profundidade; também não deve mais haver materiais grandes (pedacinhos de galhos, folhas ou ovos de minhoca) que flutuem. O material final deve conservar textura semelhante ao húmus original, com certa glutinidade e, em aparência, igualmente semelhante ao húmus original, de cor marrom escuro.
O ideal é ainda colocá-lo em camada não espessa, em bacias ou folha de plástico (pode-se cortar um saco, abrindo-o e estendendo-o) sob sol forte para que seque de uma vez. Assim, esse material pode ser guardado por muito tempo (mais de ano), e facilita demais o seu emprego na composição de novos substratos (facilita misturar à areia). 

Mas se não puder secá-lo, ou estiver com muita pressa, já pode aplicar direto no aquário, mas nunca direto na água: é na montagem inicial (em aquários já montados, pode-se usá-lo usando técnicas descritas abaixo). 

Dosagens

Sugiro sempre que faça o uso do húmus de minhoca com moderação. Também recomendo que o use "diluído" com areia grossa já lavada (granulometria 1 a 3mm), de preferência nas proporções de 50% de areia e 50%  húmus. 

As quantidades devem ser entre 1 a 2 Kg de húmus já tratado para cada 50 litros do volume bruto do aquário; por exemplo, num aquário de 100 litros recomendo usar entre 2 e 4 Kg de húmus. 

Procure evitar usá-lo na camada mais profunda do substrato, especialmente se esse for muito espesso (mais de 10cm); o melhor é colocá-lo devidamente misturado a material inerte (areia), compondo uma camada intermediária do substrato, e sempre coberto por uma última camada de no mínimo 3-4cm de areia pura, de modo que essa isole as demais camadas da coluna d’água.

Em aquários já montados dá para usar o húmus tratado colocando-o em vasos a serem enterrados no substrato (não esqueça de, nos vasos, colocar uma camada de areia por cima antes de inserir o vaso no aquário). 

Uma técnica também é possível, e que já usei bastante, são os “pacotes” de refertilização. Com o húmus seco, o misturamos à areia (50 a 50%) e/ou outros materiais (outros fertilizantes, argila etc). Essa mistura deve, então, ser envolvida / embrulhada com papel manteiga, do usado em culinária. Não use muito papel, apenas o suficiente para fazer o embrulho. Para fechá-lo, faça dobraduras no papel. 

Para colocar o embrulho no substrato faz-se assim: previamente, limpe a área a ser refertilizada, se necessário desenterrando plantas; afaste parte do substrato, fazendo ou cavando uma cova, onde o embrulho será depositado; seja rápido, mas delicado, ao colocar o embrulho, pois o papel logo pode se desfazer; por fim, cubra novamente a “cova” com o embrulho. Se quiser acelerar o processo, você pode furar o embrulho com alguma haste longa e fina – mas não se esqueça, sempre faça isso apenas depois de enterrado o embrulho !!!!

Outra forma um pouco mais trabalhosa é colocar o húmus tratado seco e puro em cápsulas gelatinosas (dessas usadas com medicamentos), que serão então enterradas junto das raízes das plantas.

E uma última opção é fazer bolotas de argila com recheio de húmus, cozendo essas bolotas em forno até ficarem secas e duras, e então proceder como no caso das cápsulas – enterra-se junto às raízes das plantas.

Texto por Vladimir Xaveir Simões, junho 2003 

3 Comentários:

Luis Torrão disse...

Boas
Também tenho usado quase em todas as minhas montagens, com resultados muito melhores que os produtos para o efeito.

Anônimo disse...

Poxa cara, parabéns por se dar ao trabalho de compartilhar conosco. Sempre compro substratos caros por desconhecer essas técnicas FVM. Será muito bem utilizado na próxima montagem. Agradeço.

Anônimo disse...

Valeu por compartilhar esta informação me deu forças para não gastar com um produto caro e aprender tentando.....inspirador...volte com mais matérias

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